Postado em 15 de Maio de 2018 às 16h24

Odilon Luiz Poli

Voz do Autor (36)

O ensino como espaço de debate e transformação social. Essa é uma das crenças do entrevistado dessa semana na coluna Voz do Autor, Odilon Luiz Poli. Tendo publicado diversos livros pela Editora Argos, da Unochapecó, incluindo “Leituras em Movimentos Sociais”, este pedagogo formado pela Universidade do Oeste de Santa Catarina chegou a atuar como reitor da Universidade Comunitária da Região de Chapecó até 2015. 

Sua carreira sempre foi voltada para a educação e a atuação de movimentos sociais. Com mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, Odilon atuou ainda como pró-reitor de Pesquisa, Extensão e Pós-Graduação e vice-reitor de Graduação. Atualmente é docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis e Administração (PPGCCA) e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), ambos da Unochapecó. Na entrevista Odilon Poli buscou esclarecer como o espaço da sala de aula, seja no Ensino Básico, seja no Superior, se mantém importante para discussões no momento de polarização política que o país vive, falando também do papel das novas tecnologias digitais no processo educacional no Brasil.


Em seu livro “Leituras em Movimentos Sociais”, o senhor trata da convergência de movimentos que surgiram no oeste de Santa Catarina entre 1970 e 1980. Para alguém com uma rica formação na área de Educação, Pedagogia e na formação de professores, por que este tema dos movimentos sociais atraiu sua atenção?

Minha preocupação está voltada ao processo de transformação social. Em que medida (e por que caminhos) a educação pode, efetivamente, contribuir com os processos de transformações sociais? Com essa preocupação em mente, entendi que os movimentos sociais são um elemento importante para a compreensão do tema, justamente porque os MS são ações que visam a transformação social. Desse modo, estudei os movimentos sociais pela ótica da educação, observando o modo como as mentalidades dos seus participantes foram se transformando ao longo de sua trajetória. Trabalhei com histórias de vida e pude observar o processo de elaboração das experiências vividas por esses camponeses, ao longo de sua trajetória, na interação com os diferentes discursos e práticas com que se depararam em sua caminhada. Há também a questão da importância dos movimentos sociais do campo no oeste catarinense, a partir do final dos anos 70 do século XX. Vivendo nessa região desde a infância, acompanhei com muito interesse os processos de transformação da região nessa época e, sobretudo, as respostas dos camponeses a essas transformações, particularmente as reações de cunho político, por meio dos movimentos sociais. 
 
Atualmente, o cenário de polarização política pelo qual passa o Brasil tem afetado, inclusive, a forma como a população enxerga o papel da educação na formação do cidadão. De um lado, temos projetos como o “Escola sem partido”, que se arvora a defender alunos e alunas de possíveis “doutrinações” em sala de aula. De outro lado, temos o surgimento de cursos em diversas instituições de Ensino Superior que declaradamente encaram o impeachment de 2016 como um “golpe”. Enquanto educador e até como ex-reitor da Unochapecó, como o senhor avalia essas formas de manifestação política dentro dos espaços de educação?

Entendo que a educação é, sim, um espaço de disputa, exatamente porque diz respeito à formação das pessoas, em direção ou em vista de um certo modelo de sociedade. Atores comprometidos com diferentes projetos e/ou visões de sociedade tendem a disputar espaço, cada qual tentando conquistar espaços para suas ideias nos processos educativos. Nesse sentido, não existe neutralidade. É o caso da “escola sem partido”. Seus representantes estão comprometidos com uma certa ideia de democracia e de desenvolvimento da nossa sociedade. Assim também representantes de outras propostas e visões de mundo também não são neutros e buscam defender sua visão de mundo e de educação. De minha parte, entendo que cada um deve ter liberdade de se expressar, de modo adequado a cada nível de ensino, deixando claro a partir de que lugar social está falando e que projeto está defendendo, abrindo, SEMPRE, espaço para outras manifestações, de modo a não se valer desse ou outros espaços institucionais sem possibilitar o debate. 


As inovações tecnológicas que temos hoje, com o advento da internet e de outras plataformas digitais, trazem novas possibilidades para o ensino, tanto nas universidades, quanto na Educação Básica. Enquanto um pesquisador que atua com foco na inovação na formação de professores, como o senhor acha que os meios digitais podem trazer influências positivas para a forma como os conteúdos são passados para os alunos?


Com certeza, mas com a ressalva de que os meios digitais, como a própria denominação diz, são “meios” que, se nos dotam de algum poder de ação e repercussão, não nos orientam sobre as finalidades do nosso trabalho. Ou seja, são apenas meios. Porém, se os professores têm clareza do seu papel e das suas contribuições nos processos de formação dos seus estudantes, os meios digitais, pelo seu potencial de interatividade e de veiculação de informações, podem ser um elemento decisivo para a viabilização dos processos formativos. Os meios digitais criam incríveis possibilidades de produção, processamento e difusão de informações, além de oportunizar grandes possibilidades de interação entre as pessoas. Isso pode repercutir positivamente na relação entre professores e estudantes, bem como nas possibilidades de acesso de ambos ao conhecimento.

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