Postado em 13 de Setembro de 2017 às 16h24

Terezinha Silva

Voz do Autor (36)

Obra busca mapear, em todos os municípios do estado de Santa Catarina, as rádios de baixa potência que estavam em funcionamento. Este mapeamento, até então, não existia, porque é um trabalho difícil de ser feito na medida em que estas experiências comunitárias, baseadas fundamentalmente em trabalho voluntário, são de alta rotatividade: muitas começam e terminam sem que fique registro histórico.

 

Veja, a seguir, uma entrevista com a autora acerca da obra.

 

De que se trata o livro e para quem se destina?

O livro traça um panorama do desenvolvimento das rádios comunitárias no Estado de Santa Cataria e analisa se e como elas têm sido experiências locais de aprendizado para o exercício da cidadania. Outros já fizeram análises sobre a relação entre rádios comunitárias e a construção de cidadania, alguns reconhecem este potencial, outros o negam ou minimizam. Eu tento ir um pouco além, tento fazer um diagnóstico de como elas surgiram, como conseguem ou não se consolidar, que fatores condicionam o seu trabalho, e construo hipóteses sobre os aprendizados de cidadania que elas podem desencadear nos municípios. É um livro que pode ser lido tanto pelas pessoas que fazem rádio comunitária ou que têm projetos de colocar uma emissora no ar, quanto por estudantes e pesquisadores que se interessam pela relação entre comunicação e educação, pelo rádio e por temas como cidadania, movimentos sociais e política local.

 

O que te motivou a escrever esta obra?

O radialismo comunitário é um fenômeno social que não para de crescer no Brasil, principalmente a partir de meados dos anos 1990. Eu me dei conta disto alguns anos depois, em função da minha atividade profissional, onde o contato com as rádios em geral era cotidiano, inclusive com as comunitárias. Vi que elas estavam por toda parte, mas que tinham perfis e projetos bem diferentes umas das outras. Inspirada na reflexão sobre o papel do rádio nas experiências de educação popular na América Latina, eu queria entender e explicar como aconteceu o processo de implantação e de consolidação das rádios comunitárias, se havia algum tipo de continuidade com aquela tradição e qual poderia ser a pertinência social destas práticas locais nos dias de hoje.

 

Quais foram os seus objetivos ao escrever esta obra?

Em primeiro lugar, mapear, em todos os municípios do Estado, as rádios de baixa potência que estavam em funcionamento. Este mapeamento não existia, até porque é um trabalho difícil de ser feito na medida em que estas experiências comunitárias, baseadas fundamentalmente em trabalho voluntário, são de alta rotatividade: muitas começam e terminam sem que fique registro histórico. Além deste mapeamento quantitativo, eu quis identificar quais as condições mais propícias para o desenvolvimento desse tipo de rádio e, principalmente, se de fato elas desempenham um papel educativo no sentido da construção da cidadania.

 

Por que a escolha do tema?

O rádio é um dos principais meios de comunicação, mas é pouco estudado, e isto não é diferente em relação às chamadas rádios comunitárias. Se compararmos a trajetória da utilização do rádio em experiências desenvolvidas pelos setores populares com as reflexões sobre esta modalidade de comunicação, percebemos que os estudos aparecem, em maior quantidade, somente nos últimos anos com a proliferação das rádios comunitárias e a aprovação, em 1998, da lei que as regulamenta. Ainda assim, parece haver um déficit de inovação analítica que nos permita ir além das constatações sobre o potencial das rádios comunitárias na construção da cidadania e na democratização da comunicação. Eu me coloquei este desafio – o leitor dirá se dei conta do recado – de aprofundar o tema, analisando-o sob diferentes aspectos. Elas têm potencial para construir cidadania? Sim, mas como, em quais condições, que obstáculos ou estímulos encontram?

 

Qual a relevância do tema abordado no livro com os temas atuais?

As rádios comunitárias proliferaram justamente num contexto em que se intensifica o processo de globalização econômica e de mundialização da cultura. Ou seja, elas surgem como práticas relacionadas às lutas políticas contra-hegemônicas e à afirmação de identidades locais. Seu surgimento também está relacionado às lutas pela democratização da comunicação e às novas condições em que se dão as lutas por direitos e cidadania, cada vez mais mediadas pelas mídias. São temas que continuam na ordem do dia. Este livro mostra como o rádio, que é mais acessível tanto em sua operação quanto nos custos de produção, pode ser um poderoso meio de produção e circulação de conteúdos culturais e políticos com potencial para a formação da cidadania. E num contexto como o que vivemos hoje é fundamental estudar, compreender e se apropriar criativamente das novas possibilidades que a democratização da técnica traz tanto para a comunicação quanto para a educação. É a partir disso que podemos atuar mais eficazmente na proposição de políticas que garantam a comunicação pública e comunitária, maior diversidade de conteúdos e de atores na comunicação, pois o que encontramos cada vez mais na chamada grandes mídia é o conteúdo único e a concorrência irracional pela audiência. Agora, sabemos que não basta só democratizar o acesso à comunicação – há muitas rádios, por exemplo, que se dizem comunitárias e não o são –; é preciso também garantir que de fato haja um controle social sobre os meios, seja sobre a mídia comercial ou sobre a pública e comunitária, para que cumpram efetivamente suas finalidades e sua função social. A análise de algumas experiências contidas neste livro mostra exatamente este vínculo estreito entre participação social na gestão e na programação e a qualidade e diversidade dos conteúdos divulgados.

 

Toda obra acaba construindo um leitor. Durante a escrita dessa obra que leitor você teve em vista?

Pensei, acima de tudo, naquelas pessoas que fazem rádio comunitária; aquelas que estão diretamente envolvidas no trabalho de colocar diariamente uma rádio no ar, seja através da produção de um programa ou de outros trabalhos necessários para mantê-la em funcionamento. São pessoas que em geral têm uma motivação impressionante para este tipo de trabalho, normalmente voluntários, que reservam uma parte de seu dia para fazer algo pela rádio, pois acreditam que ela é fundamental para melhorar a vida no município. Pensei que o relato e a análise destas experiências podem servir de reflexão ou de inspiração para outros que já fazem rádio comunitária, para os que têm projeto de colocar uma rádio no ar ou mesmo para aqueles que simplesmente se interessam pelo tema.

 

Qual a metodologia utilizada na elaboração da obra?

A pesquisa que resultou neste livro teve dois momentos. Numa primeira etapa, quantitativa, eu fiz um mapeamento, antes inexistente, em todos os municípios de Santa Catarina, das emissoras de baixa potência que estavam em funcionamento em 2003, o que deu um total de 120 rádios. A partir deste mapeamento, eu selecionei aquelas que estavam no ar há mais de dois anos, tempo que é um bom indicativo de que a emissora adquiriu relativa estabilidade e que o projeto já está mais consolidado. Estas totalizaram 43 emissoras, que eu agrupei em quatro categorias (comunitárias, mistas, particulares e as confessionais), levando em conta, para esta classificação, a participação da comunidade na gestão da emissora e/ou na produção de conteúdos e a articulação da rádio com outras organizações sociais. A partir daí eu selecionei uma amostra com seis casos de emissoras, uma em cada região de Santa Catarina, que fizeram parte da segunda etapa da pesquisa, a qualitativa. Em cada uma destas seis emissoras eu estudei o que chamo de mediações do processo de gestão de uma rádio comunitária, isto é, os fatores contextuais que condicionam – freiam ou estimulam – a gestação e a produção das rádios comunitárias. Eu analiso quatro mediações específicas: a normativa jurídica, a economia local, a política e o associativismo civil, e as afirmações identitárias. Em cada uma das seis rádios também foi analisado o processo de gestão, com destaque para quatro dimensões: a liderança de uma ou algumas pessoas neste processo, o projeto da rádio e sua articulação coletiva com outras organizações/instituições, e a produção da emissora.

 

O que o tema/foco da obra traz de (conhecimento/novo) para o leitor?

O leitor encontrará um diagnóstico de onde estão, quantas são e como sobrevivem as 120 emissoras de rádio de baixa potência que em 2003 estavam no ar em dezenas de municípios catarinenses. Além deste diagnóstico, o livro ajuda a entender os conflitos locais que estão na base da criação e da gestão destas emissoras, e mostra o que as pessoas envolvidas nestas práticas pensam e sentem sobre seu trabalho. Ajuda a entender também o quanto estas rádios estão condicionadas por seus contextos, isto é, uma rádio comunitária não é algo previamente definido e estático; é uma experiência dinâmica, atravessada por conflitos, dilemas e ambiguidades, fortemente influenciada pelo perfil daqueles que estão à frente da gestão ou da programação, e pelas características da vida política, econômica e cultural do município. Ou seja, elas têm potencial de construir cidadania, sim, mas isso não é algo direto e linear; há uma série de condicionantes, que é o que eu aprofundo no livro.

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